Aqueles que se tornam professores devem se prevenir quanto a algumas desilusões, se têm em mente a imagem clássica do " professor correto ", já ultrapassada, mas que sobrevive em seu imaginário :
- Gostar dos jovens é bom, mas nem todos são fáceis de amar, se isso significa que devem ser obedientes, educados, limpos, corretamente vestidos, disciplinados, respeitadores dos adultos. A escola recebe de agora em diante todas as crianças e as respeita como elas são. Ensinar é trabalhar com um amplo leque de sensibilidades, de culturas, de relações com o mundo.
- Gostar muito de trabalhar com jovens é bom, mas é inútil acreditar que se pode ensinar fugindo sempre do contato com os adultos. Os pais esperam interlocutores confiáveis. O educador deve também dialogar com outros profissionais, colegas, trabalhadores sociais, psicólogos, psiquiatras.
- Gostar de ser o "grande professor solitário" é bom, mas hoje é preciso cooperar, trabalhar em equipe, participar do projeto da escola. Não é possível mais se fechar em um face-a-face com os alunos : é preciso sair das quatro paredes da sala, engajar-se em inovações, atividades sindicais e grupos de trabalho.
- Gostar dos saberes e ter vontade de partilhá-los é bom, mas isso não basta quando se é confrontado com alunos que não vêem por si mesmos o sentido da escola, ou não estão dispostos em aceitar o trabalho necessário para aprender. Querer satisfazer o apetite de saber dos jovens é somente um aspecto da profissão ; é preciso também, e primeiramente, encarregar-se daqueles cuja vontade de aprender é fraca e frágil.
- Gostar de transmitir conhecimentos é bom, mas essa fórmula é somente um atalho para dizer "construir" conhecimentos. Então, devem-se criar situações de aprendizagem muito mais do que "dar aulas".
- Gostar de tomar a palavra diante dos alunos é bom, mas em doses homeopáticas. Ensinar é, sobretudo, pôr-se em trabalho, propondo e regulando tarefas portadoras de aprendizagem. É assumir o trabalho de diretor, muito mais que o de ator, é comover-se nos bastidores, fazendo um trabalho muitas vezes invisível.
- Gostar de se dirigir à classe toda é bom, mas esse procedimento tem virtudes pedagógicas limitadas : os alunos são diferentes, e o mestre tem o dever de propor atividades variadas, adaptadas às necessidades e ao nível de cada um.
- Gostar de se organizar ao seu modo é bom, mas a profissão de educador consiste cada vez menos em estar presente na escola quando os alunos nela estão também. Tempos de projetos em grupo, encontros com os pais e formação contínua fazem parte do trabalho.
- Gostar de agir com intuição e humanidade é bom, mas ensinar atualmente exige, mais que tudo, habilidades específicas, saberes e competências que não derivam do senso comum, mas de uma formação didática e pedagógica árdua.
- Gostar de vida tranqüila é bom, mas a vida dos educadores não é mais tranqüila, se é que ela já o foi algum dia. Cada reforma de estrutura, cada novo programa modifica as rotinas, nada é definitivamente adquirido, sem falar nas mudanças das tecnologias e dos modos de vida das famílias.
· Gostar de boas férias é bom, mas ensinar não consiste em ir para a sala de mãos abanando. Cada atividade exige uma boa preparação. Ensinar é, assim, uma profissão fatigante, física e emocionalmente, na qual o estresse nos ameaça.
- Gostar de estar do lado do conhecimento e da virtude é bom, mas ensinar é também manejar a sedução, a repressão, a recompensa e a sanção ; é avaliar, fazer justiça, deter segredos. Logo, é viver dilemas éticos.
- Gostar de ser o portador da verdade é bom, mas hoje em dia a mídia e a Internet disputam com a escola o monopólio dos saberes. Não se pode, então, ensinar vivendo fora do mundo, ignorando a atualidade política, científica, tecnológica.
- Gostar de instruir é bom, mas é preciso aceitar a resistência de alguns alunos, sua "alergia" ao saber, o fracasso de toda estratégia, característico do que Freud chamava de "profissão impossível", no sentido de que a ação pedagógica jamais estará certa de atingir seus fins.
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